As verdades de Nelson.

Não sei se gosto de Nelson Rodrigues. Não sei o quanto há de verdade nas frases que ele dizia. Talvez fosse o ponto de vista de alguém bem infeliz, calejado por uma vida difícil.  Talvez fosse a conclusão de alguém que entendia demais o comportamento humano e visse um pouco mais além da maioria. Quem sabe, um pouco de cada coisa. De qualquer forma, algumas vezes concordo com ele, noutras discordo veementemente.

O que não nego, é que ele me faz pensar bastante… Será que a vida é realmente assim?

O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes.”

Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos…

Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu.

“Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.”

As grandes convivências estão a um milímetro do tédio.

O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência.”

A liberdade é mais importante do que o pão.

Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé.

Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.

E para finalizar…

Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar com batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro.

“Me diga, com toda honestidade…”

Escrever aqui é um prazer, uma forma de ventilar as minhas ideias, ou melhor, de dar formas, cores e imagens à elas. Venho aqui quando tenho vontade e como vocês podem perceber, tenho tido muita vontade! rs…

Mas-porém-contudo-todavia, nessa semana escolhi ficar um pouco recolhida. Não, nada a ver com aquela coisa da introspecção canceriana. É que na semana que vem fecho mais um ano de vida, e como todo final de etapa costumo fazer uma análise da minha vida, do meu relacionamento com as pessoas que entraram nela no último ano, as que saíram, daquilo que realizei ou deixei de realizar, essas coisas. Talvez com você seja assim também, não sei.

O interessante é que quando estou nessa fase de ‘balanço’ ao relembrar o último ano é comum notar que certos acontecimentos que vivi giraram em torno do mesmo ‘tema’. Isso me dá a impressão de que cada ano de vida meu tem um aspecto que se desenvolve mais do que os outros. Nesse último ano eu sinto que esse aspecto foi o da honestidade com o subtítulo: como ser honesta sem machucar o outro.

(Assumo que minha análise ainda não se fechou e por isso o que vou lançar aqui não passa de algumas conjecturas, rs…)

Ser honesto é dizer a verdade? E se a verdade for muita dura e causar um mal, como faz? Estamos sendo realmente honestos com a gente mesmo quando pedimos ao outro que nos diga com-toda-honestidade o que pensa sobre nós? Gostamos da honestidade nua e crua em cima da mesa, escancarada, apontando o dedo na nossa cara? Gostamos?

Não, não precisa responder essas perguntas agora…

Eu tenho pra mim que ser honesto com o outro sem machuca-lo é uma arte que apenas alguns dominam. Já vi muita gente honesta ser um poço de grosseria ao dizer “as verdades” que julga saber sobre o outro (como se fossemos todos assim, muito fáceis de serem decifrados!). Ela diria, provavelmente: “Mas estava sendo honesta, ora bolas, tente compreender. Melhor assim do que iludir o outro com meias-verdades!”

Tá, tem lógica esse pensamento. Eu já fiz isso e entendo. Já disse ao outro o que me veio à cabeça e tinha certeza de que no final ele me agradeceria por ter-lhe ‘aberto os olhos’. Mas eu não abri, arrisco dizer que os fechei ainda mais. A minha forma de dizer foi aguda, doeu e aquele ser já estava fragilizado. Existe um possibilidade remota de que, na ocasião, ele não desejasse tanto assim a minha honestidade, mas eu quase não considero isso e intuo que a responsabilidade foi minha.

A relação entre eu e essa pessoa estremeceu e mesmo mantendo a conversa nossa amizade nunca mais foi tão próxima. Por causa disso eu revi a minha maneira de dizer certas coisas. Continuo achando que é preferível dizer o que se pensa a alimentar uma fantasia, mas hoje trato mais da forma de como dizer essa ‘verdade’ (trago verdade entre aspas, por se tratar de um conceito relativo. O que é verdade para mim, pode não ser para você).

Existe um ditado, meio piegas, que diz assim: “antes de disparar a flecha da verdade, passe um pouco de mel na sua ponta”. Tenho me orientado por ele, porque percebo que tem dado mais resultado e menos mágoas. As pessoas querem que lhes sejam honestas sim, mas seu desejo de serem compreendidas é bem maior.

Ser humano dá um trabalho…

E assim foi o reencontro com a Dança Cigana.

Demorei a vir postar hoje porque quero falar sobre a minha 1ª aula de dança cigana e pensei em iniciar este post com uma palavra que definisse essa primeira aula… Contudo, entretanto, todavia, por mais que eu vasculhe o meu vocabulário, não encontro nada que nomeie o que eu senti ontem.

A escola fica em Novo Hamburgo, à 45, 50 minutos de Porto Alegre, chama-se Casa Z. Fui na companhia das flores Samy e Lucy (que foi uma graça vindo p/ POA apenas p/ me ensinar o caminho!). A energia da Casa é muito particular, não parece uma escola. Parece que vc está entrando na casa de alguém que já conhece (ou conhecia mesmo? rs…). Uma parede amarela com duas lindas rodas ornamentadas de flores e fitas de cetim coloridas, o teto recoberto de vários panos, como uma tenda, e o cheirinho de incenso suave no ar, abraçando a gente. E numa das paredes, essa bela imagem:

Sayonara, a professora, é um capítulo à parte. Veio nos receber na porta, com um abraço apertado e foi aí que eu constatei que estava mesmo num lugar especial. Nos apresentamos e a empatia rolou de imediato. Ela achou que eu tinha feições ciganas e me perguntou se já havia feito aula alguma vez. Disse que não e expliquei rapidamente minha estrada na dança. Sabem…Me inquieta esse tipo de observação que ela fez, pois já ouvi a mesma coisa de outras pessoas, normalmente depois que me veem dançar. Não tenho ascendência cigana na família, mas sempre me senti atraída pela vida e história desse povo, e quando pequena adorava ir p/ o Carnaval vestida de ciganinha, lembro que me sentia a própria! (No fundo, bem no fundo, eu já sabia que tinha mais afinidade com a dança cigana do que com a dança do ventre. É quase uma coisa espiritual… Mas isso fica aqui, entre a gente tá?)

Então, cada uma de nós pegou uma grande saia num baú (todo florido, precisam ver!), vestiu e Sayonara nos levou para um passeio. Passeamos pelas danças ciganas da Índia, da Rússia, da Turquia, da Romênia e da Espanha. Juro pra vcs, não teve 1 música que eu tivesse achado mais ou menos. A pulsação existente nessas canções te envolve de uma maneira tão forte que quando você vê está girando e gesticulando como uma cigana, sem ao menos ter recebido uma orientação prévia de como é esse gestual. Aí eu percebi algo que Sayonara me confirmaria depois da aula: para se aprender a dança cigana, é preciso, primeiro, sentir a sua proposta, sua essência, sua alma. Quando isso está entendido é que partiremos para a técnica. Fantástico. (Penso que se na Dança do Ventre a coisa caminhasse dessa forma, não teríamos tantas reclamações sobre a falta de sentimento existente nas performances que vemos por aí.)

Ah! Soube que a cigana DE VERDADE nunca mostra a barriga e nem as pernas – por isso ela usa muitas saias ou uma calça por baixo. E em algumas regiões, as casadas usam lenço no cabelo. (huuum… Já me vejo à procura de lenços, hehehe)

A sala não tem espelho, o que achei ótimo, e as danças foram feitas em círculo, com interação entre todas nós. Muito bom, muito gostoso, muito feminino. Me senti entre velhas conhecidas…

Eu andava muito triste nesses últimos dias e ao sair da aula me senti leve, bem humorada, refeita. E mais do que isso, tive a sensação de estar fazendo algo que devia ter feito há muito tempo. Bem… Acho até que isso já estava ‘escrito’.

Beijos de uma Vivi “gitana”.