Extremos

Eo calor já chegou em “Forno” Alegre.  Essa terra é uma terra de extremos. Fica no extremo sul do país, no verão o calor é extremo e no inverno, o frio também é extremo. A comida é um extremo de fartura. O povo é extremo de bonito. Tudo tão contrastante com o que já vivi, tão diferente… De todos os lugares em que já morei, este é o mais peculiar, pelo menos até agora. Certos aspectos do Sul só se entende vivendo aqui e se vc conhecer um tiquim da história, fica ainda mais fácil identificar as coisas (ah…Um jeito muito gostoso de saber o porque comportamental do sulista é lendo a obra “O tempo e o Vento”, de Erico Veríssimo).

É bom ser cidadã do mundo.

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Notícias de algum ponto deste elo perdido…

Não morri, nem fui abduzida. Tô com o pé na estrada, só isso, aproveitando para conhecer os caminhos desta terra em que me encontro. Quanto mais ando por aqui, mais constato que o Rio Grande do Sul é uma terra muito diferente, de cultura singular, cuja origem vem da miscigenação do europeu com o índio e o gaúcho platino; enfim, resumindo a ópera, esta terra é praticamente um elo perdido entre a Alemanha, Itália e Brasil. Você se depara com muitas surpresas à medida em que vai ‘desbravando’ as cidadezinhas e vilarejos escondidos pelo interior deste estado! Falas muito diferentes que começam  em algo parecido com alemão, passam pelo italiano e acabam no tchê gaúcho. Paisagens inusitadas, bucólicas, invernais e lindas… Gente de bochecha cor-de-rosa te recebendo sorrindo, numa forma simples e rústica mas, de alguma forma, delicadamente sofisticada. Tirando o frio de renguear cusco*, essa terra é uma delícia, surpreendente, cativante. Agora me deem licença pois vou ali, tomar mais um gole de vinho. Volto logo mais, com historinhas na ponta dos dedos… tim tim!

*renguear cusco: termo utilizado no sul para definir frio (ou calor) intensos, duros de aguentar. Renguear, neste caso, é quando o cachorrinho (cusco), a fim de “poupar” as patinhas do frio, as reveza: anda sobre 3 patas, depois troca uma delas, colocando no chão a que estava ‘recolhida’ e ‘recolhendo’ a que estava no chão. E assim prossegue, alternando as patinhas.

Ele, o frio.

Há 4 dias os termômetros de Porto Alegre tem marcado apenas 1 dígito em seu mostrador. Já passei frio de 5 graus, mas seguidamente é a primeira vez. E ainda tem a tal da “sensação térmica” que faz vc sentir um frio (ou um calor) maior do que aquele que o termômetro indica. No caso, a impressão é a de que a temperatura está negativa. Sobretudo de noite e de madrugada.(ai, de madrugada, brrrr…)

É incrível como você adquire rapidamente novos hábitos no momento em que a temperatura abaixa. Passado o mais urgente que é o da vestimenta, vem em seguida, quase que junto com a primeira, o da alimentação. Seu corpo não quer salada de alface no inverno. Não, não quer. Aliás, tirando caldo verde ou sopa de ervilha devidamente bem quentinhos, nada ‘verde’ te apetece muito nessa época. A verdade é que você deseja um belo prato de massa nadando num molho 4 queijos puxa-puxa, fumegante. Ou um belo chocolate quente, com noz-moscada (experimenta, fica bãããão) e um tiquinho de conhaque. Caldinho de feijão grossinho, com um punhadinho de salsinha por cima (esse tantim de verde alivia o peso da consciência). Cremes e sopas com muito queijo parmesão ralado – na hora, que é mais digno. Café, capuccino cremoso, fondue de tudo. Qualquer coisa que seja quente e tenha gordura pra ajudar a formar a ‘capinha’ lipídica do seu corpo (que vai ajudar vc a se proteger do frio) se torna imediatamente irresistível e você manda pra dentro.

Fazer dieta é uma penitência das brabas. Quem consegue merece muito a minha admiração, respeito pra caramba.

E como tudo nessa vida invernal gira em torno de comida, até para se vestir vc se parece com uma delas, e já vou dizendo qual, a cebola. Assim como a estrutura desse legume, vc tamém passa a ter várias camadas de roupa sobre a pele. E vesti-las é todo um processo. Primeiro você define que o momento em que vai trocar de roupa tem que ser numa hora em que seu corpo ainda está quente, como ao acordar ou sair do banho. Então, antes disso, vc arruma e deixa à mão tudo o que vai vestir, porque não rola ficar zanzando pelo quarto ou pela casa seminu procurando o par de meias ou o moleton de flanela. Aí começa a sua maior atividade física do dia. Primeiro a base: uma calça de lã, que gruda como meia calça e uma blusa tipo segunda pele. Daí vem a calça propriamente dita, que deve ser de tecido grosso (esquece calça jeans. Jeans é térmico, esfria no frio e esquenta no calor). Blusa de gola alta. Outra por cima pra prevenir. Um casado tipo sobretudo. Ou um pala – ou poncho – de lã muito grossa, como a dos gaudérios* (esses entendem de frio!). Vamos para as meias grossas (aqui no sul a gente acha umas ‘fortes’, de trama fechada, adequadas ao clima daqui). Um gorro se vc tiver cabelo curtinho ou frio ‘nazoreia’. Cachecol (cara, cachecol é um trocinho pelo qual vc só dá valor quando tira do pescoço). Luvas. Botas. E põe a mão pra fora da janela pra sentir qual é a ‘potência’ do frio. Resolve que tem que botar uma blusa mais quente, talvez mais um par de meias. Conclui que quase não dá pra se mexer.

Ah! Não esquece de que tem que passar um hidratante ‘responsa’ no rosto, caso contrário ele ‘craquela’ na primeira soprada do vento.

E ainda dizem que ficamos mais elegantes no inverno (eu dizia isso). Não, elegante vc fica no outono, onde um sobretudo aberto por cima de uma blusinha de lá fina, decote em V e um cachecol displicentemente jogado te dão charme. E vc não precisa andar  envergado, de braços cruzados como anda no inverno, você mantém a postura esticadinha. Sim, no outono somos elegantes, no inverno a gente só quer se esquentar!

As pequenas lidas do dia-a-dia também começam a ser vistas de outra maneira… Lavar louça vira castigo. Mas cozinhar é bom, o calor do preparo dos alimentos te esquenta. O inverno também traz a chance de desenvolver a habilidade de digitar de luvas ou seu senso crítico: como que ainda não inventaram um mouse com aquecedor?

Mas a situação só é considerada realmente crítica quando você vive uma sensação igual a que vivi nessa semana: ao abrir a geladeira notei que o clima lá dentro era mais agradável do que o que estava aqui fora.

Ô ‘maravilha’! Brrrrrrrr..