Paulistês.

Houve um tempo na minha vida (tempo distante, aliás) no qual eu acreditava piamente que não falava com sotaque. Imagine… Uma paulista, do interior, que na hora de falar varia entre os “erres” retroflexos (nome chique para designar o “r” pronunciado com a língua dobrada para trás, comumente chamado de “r” caipira), de vez em quando se mesclando a um ‘cantado’ italianado, mas sempre  alongando as sílabas nas palavras ( andããããndo, comêêêêndo…). Fora as gírias. Mas também, nesse tempo, minhas andanças pelo Brasil ainda não haviam começado e as viagens mais longas se resumiam às idas ao litoral, às cidades do interior paulista e à mega capital. Ou seja, locais onde ouvia, com uma ou outra variação de termo/expressão, a mesma sonoridade, o mesmo cantado ao falar.

É claro que para mim, naquela época, isso passava batido.  Quem tinha sotaque eram os outros, os meus amigos que vinham do sul, do nordeste, do Rio… Eles é que falavam “esquisito” e eu falava do jeito “correto”.  E ainda era petulante a ponto de querer corrigi-los! Obviamente (e para o bem deles), não tive nenhum ‘sucesso’ nessa tarefa.

Foi vivendo em outros estados que a ficha caiu, junto com o meu bairrismo. O convívio com a pronúncia e a melodia contidas  nos dizeres do sulista, do carioca, do nordestino e do nortista, além de fazer com que eu internalize novas formas de me comunicar, faz com que cada retorno à Campinas seja uma redescoberta da minha forma original de falar. É quando eu percebo o peso do meu sotaque paulista, que a essa altura da vida já está misturado aos regionalismos dos lugares que passei.

Essa redescoberta é, sem dúvida, muito divertida. Numa viagem dessas prestei atenção numa expressão que usamos demais: o “tó”.

Na fala informal, os paulistas optam pelo “tó” ao “tome”. Explico. Você chega e me pede um copo d’água. Eu vou até a cozinha, pego o copo, encho de água e trago para você, colocando o copo na sua frente e dizendo “tó!”. Ou é seu aniversário e eu, ao lhe dar o presente, digo, sorridente: “tó p’cê!É só uma lembrancinha, não repara!” O “tó p’cê” é a versão completa do “tó”. Destrinchando a expressão, seria: “Tome! Para você!”.

Outra constatação. Paulista não conjuga o tempo subjuntivo dos verbos na forma tradicional (lembra? O tempo subjuntivo é aquele que indica uma incerteza, uma probabilidade).  Então, expressões como “que eu venha”, “que eu estude”, “que eu jogue” são praticamentes negligenciadas, seja pelo povo do interior ou pelo da capital. Assim, é super comum você ouvir, do porteiro ao médico-cirurgião:

“Quer que joga fora?”, “quer que eu telefono?”, “quer que eu trago?”, “quer que eu peço?”, “quer que limpa?”.

Eu mesma não me livro disso. E falo assim, direto e reto. Só me policio em situações mais formais ou dando aula. Mas no resto…

Outra expressão que pode constranger os não familiarizados ao paulistês: o “ergue aí”.

Exemplo: na casa dos meus avós, na hora da novela, é muito comum ouvir minha santa avó dizer: “- Arre, ergue aí essa TV que hoje é o úrrrrtimo capítulo!” .  Ou, se o telefone toca e o rádio está ligado, a todo vapor, no programa do Eli Corrêa, alguém diz: “- Mah quem foi o maledeto que ergueu esse rádio? Abaixa isso, desse jeito não se escuta nada no telefone!”. Ao contrário do que se pode pensar, ninguém precisou carregar a TV nos braços, fazendo força para colocá-la num lugar mais alto, nem o mesmo o radinho. O “ergue aí”, nesse caso, é aumentar o volume dos mesmos. Nada de exercício de musculação.

Tem também o “alá!”. Não, nada a ver com o islamismo. “Alá” é uma expressão indicativa, a mesma coisa que “olha lá!”. Exemplo: família paulista vendo o Fantástico no domingo à noite. De repente, a mãe fala: “Alá o fio (filho) do Fábio Júnior. Também tá participando do Fantástico“. Ou, quando passa a Esquadrilha da Fumaça pelos céus do interior paulista, o pai fala para o filho: “-Alá os avião que faz acrobacia!“. Assim mesmo, “os avião que faz”. E não pense que isso é coisa só daquele que mora na roça, ou que estudou menos. Pode parar com isso. Todo paulista uma hora vai falar assim, mesmo que não perceba. A gente escorrega, ué. Ou vai ver, foi excesso de pamonha de Piracicaba na infância, rs.

Aliás, plural e singular em São Paulo são temas que mereceriam um post exclusivo. Quem sabe um dia, quando eu souber o porque de falarmos “cabô as ficha”, “dois pastel”, ” as loja do shopping”… Até lá vou fazendo conjecturas.

Bem, encerro este post em clima de saudosismo total da minha terrinha. Deixo p’cêis um cadim da nossa música, representada no gostoso samba paulista de Adoniran Barbosa, interpretado por um de seus maiores expoentes: Demônios da Garoa!

PS:  Eu sei que você não tem essa bobagem inventada de sotaque melhor-sotaque pior, mas como você também gosta de saber das coisas e quer saber porque tem tanta gente que ainda pensa assim, faz o seguinte: da próxima vez que for à livraria Saraiva (eu prefiro a Cultura), procura pelo livro “Preconceito linguístico“, de Marcos Bagno. Enquanto vc toma o café por lá, dá uma folheada no livro, tenho certeza de que vai achar no mínimo polêmico o que ele tem a dizer e acabar levando pra casa, mostrando pra todo mundo.

Curiosidades gauchescas

(Parei um pouco de falar de Porto Alegre, né? Tá, mas agora eu volto, rs…)

Sou do Sudeste, mas já morei no Norte, Nordeste, conheço o Centro-Oeste (e tenho vários amigos de lá), mas nunca vi tanta particularidade numa região como o Sul, sobretudo neste estado em que me encontro, o Rio Grande Do Sul.

Porto Alegre é uma cidade grande, capital importante do país, mas ainda preserva algumas coisas de cidade pequena, do tipo: estabelecimento que fecha na hora do almoço e em pleno Centro da cidade, abrir nada aos domingos (exceção feita aos shoppings, mas, mesmo nestes, não é tudo que abre) e dispor de raríssimos lugares 24hs (descobri isso sábado passado, voltando de uma festa e rodando, por mais de 1h atrás de uma cafeteria, tipo o Fran’s café. Nada. Voltei pra casa sem tomar meu capuccino). Mas a gente vive, viu…Somos seres absurdamente adaptáveis (liçãozinha que já aprendi, obrigada). Ah, claro, todo esse modo de ser tem a ver com a cultura local, que por sua vez está relacionada com a história da construção deste estado. Cada um com seu cada qual.

Mas preciso fazer um destaque ao linguajar daqui. Não, eu não estou me referindo às obviedades das expressões “tchê”, “bah” ou “guri”. O buraco é mais embaixo.

O porto-alegrense, de um modo geral, fala bem rápido. A equação : rapidez+cantado da fala+regionalismo resulta em algo desafiador para quem é de fora entender. Até eu me acostumar (e ainda estou em processo), passo por 2 situações: ou finjo que entendo, ou peço pra repetir. Mas sabe, isso não me chateia, na verdade eu adoro esses sons novos que estou conhecendo (e eu achando que já conhecia como gaúcho falava, pffff…).

Compreender o que significam certas palavras e expressões daqui é, guardadas as devidas proporções, enfrentar o mesmo processo de aprender uma nova língua. E aprenda, viu, porque todos falam, do menino que toma conta do carro na rua ao diretor do banco, passando pela sua vizinha e o cabelereiro.

Espia só:

Torrada: pão com queijo e presunto tostado, o misto-quente.
Cusco/Guaipeca: cachorro . Expressão muito usada no último verão aqui: “Mas, bah, hoje tá um calor de abanar cusco!”
Mu-mu: doce de leite
Mosquear: dar bobeira, não prestar atenção.
batida: não é aquela com álcool, é aquela que no resto do país se chama vitamina, tipo: vitamina de mamão com leite, de banana…
A la putcha: ouvi só duas vezes, significa quando alguém faz algo de forma alucinada, louca.
Vazio: você vai comer no restaurante e o garçom te oferece vazio. É carne de boi, o que em outros lugares chama-se fraldinha.
Espeto-corrido: rodízio (de churrascaria. Entendeu? O espeto é corrido, porque corre entre as mesas, rsrs… brincadeira)
Hydra ou hidra (não sei porque nunca vi escrito): descarga do vaso sanitário. Isso eu sei porque precisou trocar a daqui de casa e até eu entender que o pedreiro estava falando da descarga, foi todo um processo.
Tatu: parte da carne do boi que em outros lugares se chama lagarto.
Salsichão: linguiça. Qualquer tipo (ok, tem gente que fala linguiça, mas a maioria fala salsichão)
Brigadiano: policial militar
Lomba: ladeira, subida. Uma das frases que ouvi ao pedir informação na rua: “Tu sobe aquela lomba, vira à direita, segue reto até tu chegar na outra lomba e aí pronto, tu já chegou!”
Mãs: não é mas. É mããããããããss…(acho bonitinho! :D)
Tu vai í no banco? : Você vai ao banco? Você irá ao banco?
ximia: geléia, só que mais pedaçuda, uma delícia.
Negrinho e branquinho= brigadeiro preto e brigadeiro branco, sem coco.
Capaz! : é o “que é isso! imagina!”. Exemplo: você pede um favor qualquer à uma pessoa e pergunta se não vai atrapalha-la e ela responde, toda prestativa: “- Capaz!” (ou seja, ela não vai se incomodar). Pode ser também em tom de “não acredito!”, exemplo: “Tu sabe que a gasolina vai aumentar de novo?” e o outro responde: “Capaz!” . Super comum.
Escangalhado: destruído, em estado lastimável.
Daí, Tchê!: É cumprimento, como “Oi, tudo bem?” Muito corriqueiro também.

E por aí afora.

Outra curiosidade é a forma como eles te dizem o preço das coisas. Se algo custa R$20,40 dizem: “custa vinte com quarenta”. Na primeiríssima vez que vc ouve isso, naqueles primeiros segundos em que processa a informação, pode até achar que o preço é R$ 60,00 (20 com 40 = 60). Foi assim comigo. Mas depois a luz se fez e eu entendi que eram vinte reais e quarenta centavos.

Eu adoro observar essas diferenças e ando nas ruas muito atenta aos falares, aos modos… É muito enriquecedor, e claro, divertido, interessantíssimo! São essas especificidades que fazem do porto-alegrense ser o que é, é isso que lhes dá o tom, o charme. E eu vou só agregando, cada vez mais, coisas à minha bagagem cultural.

Ah, você quer saber se eu já peguei algum desses modos de falar?
Capaz!

Ovos de Páscoa do Grêmio e do Inter. Aqui tem pra todo mundo!