A menina em seus olhos.

(um singelo conto, inspirado numa pessoa muito especial)

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Silêncio… No quarto, que como sempre está desarrumado, chegam os minutos finais do seu sono. Preguiçosamente, ela acorda e pensa: ” mais um dia..”, assim mesmo, com reticências. Lembra do trabalho, coça o olho. Vai ao banheiro, ligada no automático. Então prende o cabelo comprido e castanho num rabo de cavalo, coça novamente o olho (precisa acordar!) . Já na cozinha, afaga o cachorro… Procura a roupa que usa para trabalhar, sempre algo sério e nada que chame muita atenção, afinal, sua profissão lhe cobra certas condutas e ela não pode negligenciar isso.

Dentro do carro começa a pensar na vida, nas obrigações a cumprir, nos desejos que quer realizar, nos amores que viveu, nos que deixou passar, naquele que pode vir a ser. Relembra o que ouviu no dia anterior, de alguém que nem considera amigo, mas que soube dizer algo que fez eco dentro dela… “Será que ele sabe?“, preocupou-se. Mas esqueceu logo em seguida.  No trânsito, fica impaciente com os que vão devagar à sua frente.  Aproveita para se olhar pelo retrovisor e então o espelho revela o rosto de uma mulher crescida, em plena fase adulta de sua vida, mas… Espera. O que é isso lá dentro, no fundo do olho? Ahnnnnnn… é uma menina assim, de uns de 3, 4 anos, vestida de sainha florida e sandalinha branca nos pés… E ela está piscando pra gente, com aqueles olhinhos pretinhos, ligeiramente puxadinhos, que quase somem quando ri! Tem uma margarida na mão, certamente apanhada no jardim da casa da querida avó. A menina se aproxima, quase correndo, dá a flor à mulher que é dona dos olhos onde ela mora e lhe diz: “– Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida. Vai, ele é todo seu. Use-o bem, faça coisas que lhe tragam felicidade e completem aquele pequeno lugar do seu coração que reclama por cuidados. Ame-se, pois você está viva e isso é mérito! Agrade o seu corpo, que é verdadeiramente a sua única morada, pois é ele quem aguenta os salto do escarpin, as escadas, a bolsa pesada no ombro, a cerveja do bar, o abraço forte do amigo, o choro de saudade, a alegria do reencontro, o resmungo do cliente chato, o tesão, a raiva, a vontade sumir, o desejo de gargalhar. E é ele quem vai estar com vc em todos os dias que estão pela frente, trate-o bem.

Uau, como fala essa menina…  E ela ainda continua:“Você já viveu o bastante pra saber que tudo o que a gente pensa com força, acontece. E que de toda experiência se ganha um aprendizado, ainda que seja em várias lições. Pensando bem, você já sabe um monte de coisas… Então, só me resta dizer que viva fazendo jus a tudo o que sabe. O resto sempre se ajeita!” E então ela ri e os olhinhos viram dois riscos naquela face redondinha. “Mas onde você aprendeu a falar assim menina?Parece até alguém da minha idade!? ” – questiona a mulher, dona dos olhos onde moram a menina. E faceiramente, a garotinha murmura: “Mas eu sou. Vai dizer que não me reconheces?“.

Não deu tempo para outra pergunta, a menina já se foi. Sumiu para dentro dela, a dona dos olhos pretinhos e ligeiramente puxados, que novamente volta a atenção para o trânsito, a essa altura fluindo bem. Pensava… Fora do carro a vida acontecia e dentro dela se renovava.  A consciência de que é a própria regente de suas escolhas se fez mais clara e urgente. E assim, determinou que viveria coisas boas dali pra frente, que se amaria mais  e tentaria não complicar mais nada em sua vida… No estacionamento do prédio onde trabalha, olhou uma última vez para seu rosto no retrovisor. Sentiu-se bem, sentiu-se dona de si.  “Mais um dia!”, pensou.

Sim.  O primeiro, do resto de sua vida. Vai, bonita!

* Para Dju, a dona dos olhinhos pretinhos e ligeiramente puxados, que hoje inicia nova etapa de vida.