Eu e o meu nome.

Num primeiro momento eu iria me chamar Giovanna. Mas depois uma atriz começou a fazer sucesso com seu personagem que se chamava Monise, então eu quase me chamei Monise. Salva pela minha avó, que começou a  dizer que meu nome seria muito parecido com o da cachorrinha de estimação que se chamava Mônica, deixei de ser Monise. Se fosse homem eu seria Rodrigo, isso já estava decidido desde antes de saber que eu viria ao mundo.  Tempos depois de tanto bota nome-tira nome, meus pais estão na cozinha,  em meio a louças e panelas sendo lavadas, quando minha mãe pensa em Viviane – ainda não sei o por quê – e pergunta ao meu pai se acha o nome bom. Ele acha.  Eu nasço e lá estou na pia batismal recebendo no nome de Viviane.

Sempre que encontro significados para o meu nome eles aparecem como sinônimo de vida, vivacidade. Diz que a origem é francesa (seria uma variante de Viviene). Já encontrei também a informação que meu nome vem do latim Viviana e que pessoas chamadas assim costumam ser líderes natos, bem… Eu não vou falar sobre isso.

O fato é que só fui gostar do meu nome quando entrei na fase adulta, numa época muito boa de reconhecimento profissional e crescimento pessoal. Quando mais nova eu o detestava. Achava um nome duro, sem a delicadeza sonora dos “Adrianas”, “Carolines”, “Ana Paulas” , “Clarissas” que eu tinha à minha volta.  Mas acho que sei o motivo.  Eu era chamada de Viviane em apenas 3 situações: na entrega das provas no colégio (geralmente um momento cruel da minha existência), na lista de chamada que a professora fazia (e eu era sempre a última ou uma das, por causa da ordem alfabética, odiava isso), ou quando eu ‘aprontava’  e vinha algum adulto naquele tom de voz tenebroso, que faz qualquer criança tremer: Vivianeeeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!!!!

Não gostava mesmo.

Tinha um tio português que não conseguia falar a letra V. Obviamente, meu nome com V duplo era algo complicado dele pronunciar. Então ele resolveu o problema me chamando de Jaqueline (vai saber por quê!). “Huuuum, Jaqueline é um nome tão bonito, eu adoraria ser chamada de Jaqueline!” – pensava nos meus 6, 7 anos.  Na época passava a primeira versão do seriado “As Panteras” e uma das panteras se chamava Jaqueline. Ela era esperta, tinha um cabelo pretinho e chanelzinho comprido que eu adorava, então a identificação bateu. Mas bateu só na minha cabeça, porque tirando o meu tio, ninguém mais me chamava de Jaqueline.

1978. Vivi Batatinha em momento patriota.

Eu curtia – e curto ainda – os apelidos que me dão: Vi, Vivi, Vica …. Achava bem mais amigável, terno, divertido. Meu pai me chamava de “Vivi Batatinha”, rs, e desconfio que esse apelido tinha a ver comigo na época, já que eu era baixinha e gorduchinha, sei lá… Nunca perguntei, isso é só uma hipótese. De qualquer forma, eu adorava quando ele me chamava assim porque parecia nome de personagem de desenho animado e que criança não gosta de desenho, né?

Como disse 3 parágrafos acima, aprendi a gostar do meu nome depois que virei adulta, numa época em que me afirmava numa série de aspectos pessoais e profissionais da minha vida. Eu penso que tem tudo a ver. Aceitar meu nome, passando a acha-lo bonito foi o resultado de um processo de aceitação bem maior pelo qual passei,  que foi a aceitação de mim mesma e das escolhas que fiz.

Hoje em dia é raro achar alguma garotinha chamada Viviane. Pergunto a toda mulher grávida que conheço e sabe que espera uma menina, qual será o nome e nunca é Viviane. Carolinas existem aos montes, Anas idem. Tá começando também a moda das Julias, Beatrizes, Amandas, Alines, Gabrielas … Fora os nomes “místicos” ou “raiz” que também são bem cotados como: Luna, Yasmim, Tuinara (sério). Viviane tá quase em extinção. Ou ninguém mais lembra dessa opção ou não gostam mesmo.

Pois eu gosto, estou de bem com ele. Prazer… Viviane.

Um pouco de Clarice…

… e um pouco muito de mim.

“Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento. Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Eu sou uma pergunta sem resposta ,curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo,mas única verdade é que vivo,sinceramente, eu vivo.Quem sou?
Bem, isso já é demais. Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada, mas sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,depende de quando e como você me vê passar.E se me achar esquisita,respeite também.

Até eu fui obrigada a me respeitar.”
– Clarice Lispector