Do cotidiano para o palco

Desenvolver uma obra de alto nível artístico a partir das coisas simples, comuns e despercebidas no cotidiano. O trabalho de Ivaldo Bertazzo parte deste pressuposto: de algo aparentemente tão simples (simples nada, levamos séculos para adquirir esse refinamento gestual), brota um dançarino, um tradutor de emoções… Pode ser você, eu, nossos vizinhos, a moça do café…

Vale muito a pena ver. Aproveita que hoje é sábado e vc está com tempo.

Minha outra casa.

Então, eis que estou nessa vida – provisória – de desempregada. Embora isso não me agrade, porque $$ é importante e me faz feliz porque dá a liberdade de fazer o que tenho vontade, confesso que encontrei um lado bom nessa fase: a retomada de coisinhas que curto fazer e que para mim são até ‘momentos terapêuticos”, como: revirar meus tantos livros e cadernos de receitas a procura de gostosuras pra fazer, dar uma cara nova à um objeto antigo, e o supra-sumo de todos eles, poder colocar minhas leituras em dia, saboreando meus queridos livros de psicanálise (que me fundem a cabeça, mas eu gostcho) e redescobrir o prazer de ler histórias de ficção e biografias.

Mas internet é uma coisa que já não sei viver, é algo que incorporei de todo. Ser blogueira foi consequencia aliada ao meu gostar de escrever e também já virou um vício. Já entrei naquele processo de ver alguma coisa na rua e desejar vir correndo contar no blog. Amigo(a) blogueiro(a), com vc também foi assim?

Pois é. Daí que quando fiz esse blog tinha a intenção de falar de tudo um pouco e , por essa razão, ele se chama Balaio da Vi. Mas, odalisca que sou, não tive como fugir do assunto dança, sobretudo dança do ventre. Vi que de 4 assuntos, 3 eram dança. Percebendo que isso fugia da ideia inicial do blog, optei em criar um novo espaço blogueiro, que chamo de “minha segunda casa”, e aí fiz um blog só pra falar de dança. Ei-lo: Shimmies, tremidos e variações.

O porque deste título e a razão dele existir estão lá na primeira página do blog. Sei que a frequencia maior será dos amigos e amigas da dança, mas está todo mundo convidadíssimo a ler, até porque, quando escrevo, escrevo para leigos, profissionais, admiradores e curiosos sobre o assunto.

Te espero por lá, pra gente tomar um café e ver uns videozinhos de dança.

Beijoquitas da tia.

Sobre os rumos da Dança do Ventre.

Nossa querida e amada Dança do Ventre está atravessando uma fase que tem deixado muita gente tonta com algumas modinhas, tais como:

– piruetas à lá Bolshoi,
– pernas levantando até o nariz (que me deixam temerosa, afinal, dançamos de saias),
– works que ensinam a colocar jazz entre shimmies e ondulações,
– saias justérrimas que tampam só a metade do corpo das bellydancers e ainda fazem par com aquele indefectível shortinho (obs: eu acho que a 1ª bailarina que usou isso não tinha amiga que dissesse “fia, tá ridícula essa roupa, anda vestir uma saia mais digna!” – daí o restante, que também não tinha amiga sincera, foi lá e copiou o ‘traje’).

Dentre outras.

Olha, sou super a favor de mudanças e rezo da cartilha que apoia a evolução da dança a partir das influências externas do meio. Mas tudo tem um limite, uma dose certa e quando ela passa do ponto a massa desanda. Concordo que braços alongados e fluidos, giros bem feitos e pernas bem posicionadas sejam essenciais numa apresentação de alto nível técnico. Mas o que era para ser coadjuvante na DV, tem se tornado o personagem principal. Tenho visto uma Dança do Ventre cada vez mais “dança de braços e pernas” e menos ventre. É um tal de gira, gira, gira pra cá, gira, gira, gira pra lá, gira no lugar, faz pontinha de pé e mostra que abertura de perna tá em dia que eu chego a pensar que o que a bailarina queria estar fazendo na realidade era um solo de “O lago dos Cisnes”. Os trajes acompanham essa mudança passando a dar maior destaque à essas partes do corpo – e talvez aí esteja a justificativa da adesão às saias que desnudam nossas pernas e revelam onde está o ‘segredo’ dos movimentos do quadril.

Pode ser um absurdo dizer isso, mas temo que esse caminho acabe por distanciar a Dança do Ventre daquilo que justifica seu nome e a deixe um ‘Frankstein” de outras danças com traços da dança árabe.

Talvez vocês aí saibam a resposta, se souberem me digam, pois eu ainda não sei: porque vemos isso na Dança do Ventre? Por que essa necessidade de usar elementos de outras danças para ‘aprimora-la’, como se nela mesma não encontrássemos recursos para faze-lo? Eu não vejo isso na dança contemporêna, muito menos no ballet. Quando penso sobre isso, lembro da Psicologia: se parecendo com aquilo que já é aceito pelo grupo (leia-se sociedade), aumento minhas chances de ser aceito também. Hum…Será que é por aí que a banda toca?

Enquanto eu e você pensamos na resposta, vamos nos deliciar com 2 videos deliciosamente ‘raiz’: um falahi mega caipirão e um baladi de palco, que mostra que não é preciso fazer firula balética pra prender a atenção do público.


O corpo tem suas razões

Este é o título de um dos livros recomendados na especialização em Psicomotricidade. Foi um dos livros mais importantes e interessantes que li na minha vida, sem exagero.

Exercer a atividade de professora de dança é ter contato e saber lidar com as expectativas, inseguranças e desejos existentes no corpo do aluno. E quando digo corpo, não me refiro à tronco e membros. Já passou da hora de colocarmos abaixo esse discurso que separa a mente do corpo. A mente está no corpo, guardada num órgão chamado cérebro. Mas tudo é corpo.

Cada corpo tem uma história. E ela começa no ventre materno. Desde esse momento até o ‘agora’, você passou por milhares de experências corporais que foram, pouco a pouco, constituindo a sua forma de pensar, de agir e reagir, se tornando as razões dos seus medos, dos seus bloqueios, da sua confiança e, por fim, da sua autoestima. E é por isso que ao se trabalhar com o corpo do outro é necessário pedir licença. Nunca se sabe que histórias aquele corpo viveu.

Já parou pra pensar na forma como você se movimenta? Se fizesse uma primeira análise, superficial, como você nomearia sua forma de se movimentar? Economiza nos gestos, na força? É lenta? Ou rápida, vigorosa? É ampla, vez ou outra derruba as coisas ao seu redor? Ou contida? Introspecta, como se tivese medo de se machucar? Ou é chamativa, atrai olhares?

Isso tem a ver com a forma pela qual as vivências corporais influenciaram o psiquismo e ajudaram a configura-lo da forma como é.

Na maioria dos casos, somos educados a pensar no corpo de um maneira fragmentada. Braço é uma coisa, que não tem nada a ver com a barriga, que não tem nada a ver com o joelho e por aí afora. Exemplo: trata-se de uma prisão de ventre como se estivesse no aparelho digestivo a única causa para a mesma.

Vejamos: o ventre é o centro de gravidade de corpo, certo? É nessa região que o alimento é metabolizado e vira energia, foi o nosso primeiro contato com a vida através do cordão umbilical. Núcleo da digestão, do processamento, da eliminação… Já pensou na relação que existe entre o funcionamento desse sistema e as suas emoções? Os medos escondidos, os fatos mal explicados, não digeridos, as mágoas guardadas… Bem, como disse, isto é só um exemplo. É só pra fazer você pensar.

Nosso corpo é nossa casa e da nossa casa devemos ter o controle. Não ter o controle de casa corrói a confiança em nós mesmos. Desejar uma coisa e não te-la faz nascer o sentimento da compensação. E o resto da história vocês já sabem.

Esse pequeno texto dá gancho p/ muitas conversas sobre corpo, emoção, movimento e vida. Volto a falar sobre esse tema, prometo. Por enquanto, quero apenas alertar aos que trabalham com dança ou qualquer outra atividade que implique em expressão corporal. A pessoa que vem até você, procurando uma atividade para se ‘desestressar’, ocupar o tempo livre ou emagrecer tem uma história registrada no seu corpo. Nem sempre essa história está clara, e em muitos trechos, seu conteúdo está lacrado. Não é a sua tarefa desvendar essa história. Essa é uma caminhada individual, no qual a sua interferência pode ajudar essa caminhada a ser mais rápida. Sugiro, portanto, que acolha este corpo e que o ajude, na medida do seu conhecimento e preparo de professor(a), a ser mais livre.

Para quem se intressou pelo o que o livro tem a dizer, aqui vão as informaçõe sobre ele:

O corpo tem suas razões (Antiginástica e a consciência de si)

Thérese Bertherat / Carol Berstein
Martins Fontes

Beijins nas bochechas.

Pensando Dança.

(Reeditado. Percebi que algumas coisinhas precisavam ser melhor explicadas….)
***

Você, amiga (o) bailarina (o), já pensou, de forma profunda, na importância da dança na vida das pessoas, dos seus alunos, das pessoas que convivem com você?
Trago algumas questões, nascidas na época em que escrevia minha monografia, sobre a urgência em se levar o ensino e a prática de dança à sério.
São pensamentos profundos, que abordam a dança como um processo de conhecimento, sobre si mesmo e do que existe a nossa volta.

Vou dividí-los com vocês.

Por que é preciso levar a Dança a sério?
Bem…Para além de ser muito mais que uma forma de expressão, dançar é re-significar o mundo através da arte.

Porque você pode compreender melhor a sociedade quando percebe que toda dança está sempre submetida ao movimento histórico da humanidade. Observe um grupo social e suas danças e perceba que todas elas, folclóricas ou não, expõe um dado entendimento sobre corpo, emoções, papéis homem-mulher, vida,morte, etc. Por isso que dança também pode ser um canal para o exercício do pensamento crítico, sobre o mundo, a sociedade, seus valores e normas.

Dança folclórica russa

E pensando sobre tudo o que acontece na sociedade, você passa a considerar aquilo que pode ser transformado e como faze-lo. Olha aí a dança como canal de transformação, gente!

Através da dança podemos nos conhecer cada vez mais, e mais, e mais…Veja: ao criarmos uma dança, levamos para ela elementos da nossa compreensão de mundo, que por sua vez serão organizados dentro de uma estrutura rítmica e sonora. Mas para que vc consiga fazer esta organização, precisa perceber em si mesmo, qual é a relação entre seu corpo, o que sente e o ambiente.

Dançar é colocar no corpo a voz que não sai da garganta. Dançar é sempre comunicação – ainda que o dançarino não queira, ou não se aperceba – , porque possui um interlocutor. Existe sempre aquele que assiste e decodifica o que vê. O corpo do bailarino é a tela e seus movimentos imprimem sentimentos. A força e a intensidade dos gestos dão a entonação dessa narrativa. Acredito eu, portanto, que nós, seres humanos, que vivemos interpretando tudo e todos, somos sempre atingidos pela narrativa de qualquer dança que seja, ainda que o que nos atinja seja um sentimento de repulsa. (huuum… e por que certas danças nos repulsam?)

Ensinando dança.
Quando dançamos, estamos, num olhar mais analítico, plasmando a maneira como nos relacionamos com o mundo, de como o vemos e o assimilamos, e que valores são trazidos e/ou permanecem dessas relações.
Bem…Dança é uma (re)aprendizagem corporal. Como você se comporta diante de algo novo a aprender? Sente-se desconfortável, talvez? Natural… Toda vez que você vai aprender alguma coisa, outra coisa (que normalmente já é bem conhecida sua) precisa ser desconstruída, ou rearrumada, ou reelaborada dentro de você. Do seu ‘castelo’ de conhecimentos, derruba-se uma parede, amplia-se um cômodo, constrói-se uma nova janela. Reforma dá trabalho, poeira, e por vezes nos faz perder a paciência… Mas a medida que vamos percebendo a obra ficando pronta, mais rápido corremos para terminá-la.
Com o corpo é a mesma coisa. Todo processo de (re)aprendizagem implica numa desestruturação daquilo que já esta internalizado, ‘sabido’ no corpo. É uma adpatação a uma nova forma de mover-se. Ou seja, passar a compreender o corpo dentro de uma nova ótica de movimento. Por isso é tão incômodo às vezes. Mas perceber, ao final desse processo, que seu corpo é capaz de girar de uma forma que não girava antes é subir um degrau na sua confiança, na sua capacidade de se superar. Por ser uma atividade primordialmente psicomotora possibilita o aumento da auto-confiança e ajuda a expandir a consciência relacional da pessoa.

Workshop no espaço de Bela Saffe

Mergulhando mais profundamente nessas considerações, penso na prática pedagógica das aulas de dança. Dentre as tarefas do professor(a) de dança, uma das que eu considero fundamental para um exercíco pleno, criativo e promotor do desenvolvimento dessa arte é estimular nos alunos a observação aos discursos sociais sobre o corpo. Vejam, mexer o corpo diferente do que se faz no cotidiano, numa ordem ritmada, com ou sem uma melodia é, sem dúvida (pleno menos eu acho, rs) uma fonte de prazer… Mas também pode ser conflitante. O conflito aparece por que a forma como alguém se deixa conduzir na dança está profundamente ligado com o que ela escuta de suas ‘vozes’ internas. ‘Vozes’? Sim. Os ecos dos discursos que a sociedade coloca sobre o corpo. Que discursos são esses? Inúmeros, vou citar aquele que diz existir corpos mais ‘adequados’ para a dança do que outros, exemplo: a sobrevivência de um consenso que paira no ar das academias de dança (mas que, obviamente, ninguém profere) de que a bailarina clássica ‘ideal’ deve ser branca e quase anoréxica. Com a palavra todas as meninas gordinhas que foram fazer ballet. Quer outro discurso? Ok. Lembrem-se do que dizem por aí dos homens optam em seguir carreira de bailarinos. E se seu filho, sobrinho querido optassem em fazer jazz ao invés de futebol? Por que dança ainda é vista como coisa predominantemente feminina?

Assuntos que por si só dariam posts bem grandões e polêmicos.

Mas, voltando ao assunto… Lembrei de um trechinho de um artigo da Helena Katz (fantástica) onde ela diz isso aqui:

“… a dança acontece nas estruturas neuronais. No corpo que aprende a dançar existe um salto entre a repetição de movimentos e a sua transformação em dança (…).Tais apontamentos a respeito do trânsito entre o dentro e o fora dizem respeito a todas as instâncias do corpo. Uma vez que é o cérebro o comandante de quase todas as ações do corpo, deve-se atentar para a necessidade de pensar o corpo num contexto irrigado por informações plurais e capazes de promover novas percepções para velhas questões.”

Novas percepções para velhas questões. Isso dá um bom artigo, rs.

Muito além de ser um canal por onde exaurimos nossas emoções, o prazer proporcionado pela dança preenche um local no coração da gente que nada mais preenche. Você, concorda?

Meninas do Grupo Kairós (Salvador, Bahia). Lindas de viver.

Tá vendo? Além de ser bom, dançar serve prá um monte de coisa.
Aguardem que vem mais por aí. Enquanto isso, deem seus pitacos.

Beijos rodopiantes.