Sobre as coisas curiosas que a gente encontra por este país.

A Lu Arruda me chamou para uma brincadeira entre blogueiras e cá estou, cumprindo a minha parte – com muito prazer – nessa tarefa. O objetivo é falar 7 coisas sobre você e escolhi falar sobre as 7 coisas mais curiosas/inusitadas que encontrei pelos lugares onde já morei. ‘Bora saber?

1ª) Três Corações (MG) – Saí de Campinas em 1998 e fui morar na pequena e pacata cidade de 3 Corações, terra do Pelé e da minha 1ª professora de Dança do Ventre, a Ana Luíza. Não tinha muito o que fazer por lá nos finais de semana, então, se você não vai almoçar fora, num dos muitos pesqueiros que tem por lá, você vai para a praça da cidade. Na praça as pessoas estão com suas melhores roupas, andando, de lá pra cá, mas até aí, tudo bem, tudo normalzaço para uma cidade do interior. O que agitava o passeio da galera era um carro, uma espécie de Dodge ou Opala reformado. Nunca consegui reconhecer que tipo de carro era aquele por causa de uma colorida questão: a quantidade de lâmpadas e acessórios ‘colados’ na lataria do carro, que piscavam alucinadamente, sem falar na buzina totalmente estridente e estranha que saía dele.  E era um dos cartões postais da cidade, todo mundo queria uma fotinha do lado do carro.  Não sei se ele ainda existe, mas se existir e algum tricordiano ler esse post, manda uma fotinho dele pra mim, por favorzim? Divulgo aqui com créditos e tudo!

2ª) Ainda em Três Corações – Lá tem ‘boutiques’ boas (ai, boutiques é tão antigo, né? Como é que se fala hoje?), com roupas das lojas do Rio e de BH , aliás, uma modinha muito legal, diga-se de passagem. Daí que quando vc vai numa dessas boutiques e fica indecisa ao escolher a roupa, a gerente, super fofa, vira pra vc diz: “Ah, querida, leva pra casa as que vc gostou, experimenta com calma, amanhã vc traz de volta! Espera que eu só vou marcar aqui no caderninho as que vc está levando…. Tem pressa não, sô…” . Coisa linda, né gente? Igual em São Paulo!

3ª) Rio de Janeiro – Quando a gente está com fome e está na rua, com pressa, nada melhor do que comer um joelho. Não tô falando de joelho de porco. Falo do joelho, feito de massa de pão enrolada, recheado de queijo e presunto, calabresa, frango e com orégano em cima. Putz, como é bom. Como dizia aquela antiga música que não sei quem cantava: “tem vitamina, engorda e faz crescer!”.

4ª) Rio Branco (Acre) – ai, covardia falar dessa terra que eu amo tanto… Mas lá tem coisas muito diferentes… Uma delas é o refrigerante de saquinho. Em grande parte do país, quando você vai numa lanchonete, ou na cantina da faculdade/empresa e pede um refrigerante, o atendente te dá a lata ou a garrafa e pergunta se vc quer um copo ou canudo pra tomar. No Acre eles perguntam se vc quer o refri no saquinho. Quando eu escutei isso pela primeira vez eu ri e achei que era brincadeira. Mas não era. Tratava-se apenas de uma outra forma de matar a sede: beber o refri no saquinho, usando canudo. Assim:

Até dominar a técnica de segurar a embalagem e falar ao mesmo tempo,  alguns saquinhos, cheios de refri, foram ao chão. Mas depois que você compreende o segredo da coisa toda, fica fácil. Eu conseguia até atender celular e segurar o salgadinho sem deixar o saquinho cair no chão. Fiquei ninja no negócio, rs.

4ª) Mais uma de Rio Branco. , os estabelecimentos comerciais possuem nomes curiosos, que pouco tem a ver com a mercadoria que vendem. Por exemplo, na época que morava lá havia uma loja de material para construção chamada Agroboi (?) e outra chamada Barriga Verde. Tutti-Frutti era nome de pizzaria. Big Lanche o de um restaurante que não faz lanches. Esquina Verde, que não era floricultura, era peixaria. E assim por diante, tudo muito criativo e esclarecedor para o consumidor.(Valeu Tatá!!!!!!)

5ª) Salvador (BA) – No campus da UFBA, onde fiz Pedagogia, existia o Robertinho Baleiro. Quer dizer, acho que o Robertinho ainda existe, o que não existe mais é a barraquinha dele, uma antiga guarita, que ficava na frente do portão de entrada da Faculdade de Educação. O Robertinho vendia doces, refris, salgadinhos e também era o nosso vigia, comentarista e ‘balcão de informações’.  Dentro da cabine, dividindo o espaço com os quitutes, havia um sistema de auto falantes que espalhavam a voz do Robertinho por toda Faced . Era ótimo. Ele dizia a hora, se o Bahia perdeu o jogo – e ainda fazia comentário! Também falava das notícias do jornal e só interrompia o falatório pra atender cliente ou dizer qual ônibus estava vindo: “Olha aí pessoal, tá chegando Vila Laura, Iguatemi, Rodoviária…”. Ninguém perdia o ônibus. Fiquei sabendo que hoje ele dá palestras para empresários locais. Huuum, ficou chique.

6ª) Aliás, em Salvador, eu fazia muita confusão com nome de algumas coisas. O que em SP se entende por canjica, lá é mugunzá e a canjica de lá é o cural de milho do sudeste, entendeu? Então tem mais… Lapiseira é apontador e grafiti é a lapiseira, que se usa para escrever. Pasta de elástico, pra gente guardar trabalho de faculdade e documentos é classificador. Guardou? Ok, vou parar por aqui.

Classificador, lapiseira e grafiti. Mas faz sentido, não faz?

7ª) Porto Alegre (RS) – Quando cheguei aqui não foi só o linguajar local que estranhei, mas alguns costumes. Como no dia em que fui à uma padaria comprar muzarella para o lanche. Não encontrei aqui padaria que fatiasse o queijo na hora, ou eles já estão fatiados ou veem embalados à vácuo e são de marca (tipo Polenghi, ou Santa Clara). Ficam todos na geladeira, aguardando o freguês. Frios fatiados só no mercado, na padaria non. Aliás, já que falei de frios, outra coisa curiosa… Já ouvi alguns gaúchos chamarem de “frios” os salgadinhos servidos numa festa, exemplo: ‘Vou fazer meu aniversário em casa e preciso encomendar os frios… Quantas coxinhas tu achas que devo pedir?”. Uma graça!

Por essas e outras que sempre digo: há muitos Brasis dentro do nosso Brasil.

Pra continuar a brincadeira chamo a AngelCamilla, Denise, Ghiza, Samya Ju e a Jana!

Aberturas de novelas!

Brasileiro adora novela, mesmo que não goste. Adora. Uma pessoa pode dizer que não vê (como eu), mas sabe qual é o nome das 3 novelas que estão passando. Com mais insistência sabe quem é o mocinho e quem é o bandido. Brasileiro sabe que horas são pela novela. Decora a casa como a casa que aparece na novela, porque se apareceu lá, é porque deve ser daquele jeito que se faz. Brasileiro fala gíria de novela e o que não vê novela repete também, só não sabe de onde veio (ou sabe mas não declara, afinal tem que manter a pose). Brasileiro compara a própria família com a família da novela. E não distante baseia suas atitudes nas atitudes do seu personagem preferido. Brasileiro confunde ator com personagem (Glória Pires, na época de Vale Tudo que o diga!). Mas tem uma coisa que brasileiro adora mais que a própria novela: a abertura da novela!

Abertura de novela é uma história à parte, se vc prestar bem atenção naquele micro-clipe de 1 minuto (aproximadamente), vai ver que ali reúne a essência da trama onde se revela qual vai ser o teor de dramaticidade que vc vai acompanhar por 7, 8 meses. As aberturas das novelas das 6 são doces, românticas, as das 7 mais divertidas, irônicas e as das 8 (melhor, 9) são mais sérias, mais ‘complexas’…. As músicas grudam na nossa cabeça e permanecem grudadas muito depois que a novela acaba, viram quase uma referência ‘histórica’.

Ah, eu menti lá em cima. Quer dizer, não menti de todo. Eu não vejo mais novela realmente, mas já vi muito. E vou relembrar com você algumas das aberturas que mais me marcaram. Vem comigo.

Era 1979 e eu era uma pequena menina de cabelo chanel curtinho que dançava loucamente com minha melissinha de tirinha e meia ‘dancing days’ assim que ouvia:

É um glamoursh essa música, não é?

Os anos 80 começavam, trazendo suas cores berrantes, o culto ao corpo, maiôs com cavas embaixo do braço e o termo “Eu tô que tô!” na boca de todo mundo. Sabem que essa novela é do Manoel Carlos?

E viva o Zé Pereira!

Em 82 a Rita Lee embalava o tema da novela Final Feliz, cuja letra eu cantava todinha errado, e dizia qualquer coisa na hora do “Se a Debora quer que o Gregory lhe pegue!”. Não tinha ideia de que ela falva da Debora Kerr e do Gregory Peck. Aliás, nem sabia quem eram eles.

Essa abertura era meio pronográfica para minha cabecinha de 11 anos. E a letra ainda falava “a vida sexual dos selvagens”! Ui! Ah, quem cantava era Gang 90 e as Absurdetes!

A coisa começou a modernizar-se, bendito seja Hans Doner. Adorava a música da novela Champanhe (1983) e os instrumentos, taças e batons flutuando no ar. O Vídeo Show mostarava como tudo era feito e eu vibrava!

Mas essa aqui me prendia muito a atenção. As mocinhas da trama saíam mais velhas da fotografias! E a música então? Muito alto astral! Me tirava do sofá. Aliás, me tira até hoje se bobear.

Em 1984, Bimbo e Cumbuca (Paulo Autran e Fernanda Montenegro, respectivamente) brigavam e divertiam a gente em Guerra dos Sexos. Sim, novela era engraçada.

Olha o Atari nessa abertura aqui! Eu queria um Atari nessa época, era o meu sonho de consumo (e de 10 entre 10 crianças).

Lembra do Ney Latorraca como Volpone (1985)? Começava aqui:

Viúva Porcina, Sinhozinho Malta… Adivinha. Roque Santeiro!(1985)

Mas ainda estava por vir a melhor novela de todos os tempos. O ano era 1987, o Brasil acordava em muitos aspectos sociais, políticos e Gal Costa falava , todo santo dia: “Brasil, mostra a tua cara!” (Ah, Maria de Fátima sem-vergonha!)

Essa eu queria ver de novo!

Aliás, 1987 foi um ano marcante. Lembram de Bambolê, ambientada nos anos 60? Eu amaaaava essa novela!

E a moda da lambada chegava,com Tina Pepper e companhia….

Aqui as sombrancelhas virgens da Malu Mader viraram moda, assim como o cabelinho arrepiado em cima e comprido atrás. Eu usei muito, qualquer dia posto aqui prô cêis ver. Ti – ti -ti, a novela dos costureiros Victor Valentim e Jaques L’éclair.

(kkkk.. lembrei que marido tinha um alfaiate chamado Jacque L’éclair!!! Ele e mais todo o quartel. Melhor, Jaque Lecré, segundo o assistente deste profissional.Comédia viu… rs)

Ah, a mulherada a-do-ra-va essa abertura. Mesmo depois que a folhinha de parreira foi colocada. Trago aqui a versão sem a folhinha de parreira. Go girls!

Finalizando, com uma novela de 1988/89, com a mulher que se enroscava no coqueiro… Não lembra?? Tieta, pô!

É, falta um monte nessa lista. Mas é complicado colocar tudo aqui, né rapaziada? Vamos assim, indo devargazinho, em doses homeopáticas, resgatando coisas boas…. Novela é um programa brega, popularesco, eu sei, você também acha. Por que tinha que ter tanto a ver com a gente? Poxa.

Curiosidades gauchescas

(Parei um pouco de falar de Porto Alegre, né? Tá, mas agora eu volto, rs…)

Sou do Sudeste, mas já morei no Norte, Nordeste, conheço o Centro-Oeste (e tenho vários amigos de lá), mas nunca vi tanta particularidade numa região como o Sul, sobretudo neste estado em que me encontro, o Rio Grande Do Sul.

Porto Alegre é uma cidade grande, capital importante do país, mas ainda preserva algumas coisas de cidade pequena, do tipo: estabelecimento que fecha na hora do almoço e em pleno Centro da cidade, abrir nada aos domingos (exceção feita aos shoppings, mas, mesmo nestes, não é tudo que abre) e dispor de raríssimos lugares 24hs (descobri isso sábado passado, voltando de uma festa e rodando, por mais de 1h atrás de uma cafeteria, tipo o Fran’s café. Nada. Voltei pra casa sem tomar meu capuccino). Mas a gente vive, viu…Somos seres absurdamente adaptáveis (liçãozinha que já aprendi, obrigada). Ah, claro, todo esse modo de ser tem a ver com a cultura local, que por sua vez está relacionada com a história da construção deste estado. Cada um com seu cada qual.

Mas preciso fazer um destaque ao linguajar daqui. Não, eu não estou me referindo às obviedades das expressões “tchê”, “bah” ou “guri”. O buraco é mais embaixo.

O porto-alegrense, de um modo geral, fala bem rápido. A equação : rapidez+cantado da fala+regionalismo resulta em algo desafiador para quem é de fora entender. Até eu me acostumar (e ainda estou em processo), passo por 2 situações: ou finjo que entendo, ou peço pra repetir. Mas sabe, isso não me chateia, na verdade eu adoro esses sons novos que estou conhecendo (e eu achando que já conhecia como gaúcho falava, pffff…).

Compreender o que significam certas palavras e expressões daqui é, guardadas as devidas proporções, enfrentar o mesmo processo de aprender uma nova língua. E aprenda, viu, porque todos falam, do menino que toma conta do carro na rua ao diretor do banco, passando pela sua vizinha e o cabelereiro.

Espia só:

Torrada: pão com queijo e presunto tostado, o misto-quente.
Cusco/Guaipeca: cachorro . Expressão muito usada no último verão aqui: “Mas, bah, hoje tá um calor de abanar cusco!”
Mu-mu: doce de leite
Mosquear: dar bobeira, não prestar atenção.
batida: não é aquela com álcool, é aquela que no resto do país se chama vitamina, tipo: vitamina de mamão com leite, de banana…
A la putcha: ouvi só duas vezes, significa quando alguém faz algo de forma alucinada, louca.
Vazio: você vai comer no restaurante e o garçom te oferece vazio. É carne de boi, o que em outros lugares chama-se fraldinha.
Espeto-corrido: rodízio (de churrascaria. Entendeu? O espeto é corrido, porque corre entre as mesas, rsrs… brincadeira)
Hydra ou hidra (não sei porque nunca vi escrito): descarga do vaso sanitário. Isso eu sei porque precisou trocar a daqui de casa e até eu entender que o pedreiro estava falando da descarga, foi todo um processo.
Tatu: parte da carne do boi que em outros lugares se chama lagarto.
Salsichão: linguiça. Qualquer tipo (ok, tem gente que fala linguiça, mas a maioria fala salsichão)
Brigadiano: policial militar
Lomba: ladeira, subida. Uma das frases que ouvi ao pedir informação na rua: “Tu sobe aquela lomba, vira à direita, segue reto até tu chegar na outra lomba e aí pronto, tu já chegou!”
Mãs: não é mas. É mããããããããss…(acho bonitinho! :D)
Tu vai í no banco? : Você vai ao banco? Você irá ao banco?
ximia: geléia, só que mais pedaçuda, uma delícia.
Negrinho e branquinho= brigadeiro preto e brigadeiro branco, sem coco.
Capaz! : é o “que é isso! imagina!”. Exemplo: você pede um favor qualquer à uma pessoa e pergunta se não vai atrapalha-la e ela responde, toda prestativa: “- Capaz!” (ou seja, ela não vai se incomodar). Pode ser também em tom de “não acredito!”, exemplo: “Tu sabe que a gasolina vai aumentar de novo?” e o outro responde: “Capaz!” . Super comum.
Escangalhado: destruído, em estado lastimável.
Daí, Tchê!: É cumprimento, como “Oi, tudo bem?” Muito corriqueiro também.

E por aí afora.

Outra curiosidade é a forma como eles te dizem o preço das coisas. Se algo custa R$20,40 dizem: “custa vinte com quarenta”. Na primeiríssima vez que vc ouve isso, naqueles primeiros segundos em que processa a informação, pode até achar que o preço é R$ 60,00 (20 com 40 = 60). Foi assim comigo. Mas depois a luz se fez e eu entendi que eram vinte reais e quarenta centavos.

Eu adoro observar essas diferenças e ando nas ruas muito atenta aos falares, aos modos… É muito enriquecedor, e claro, divertido, interessantíssimo! São essas especificidades que fazem do porto-alegrense ser o que é, é isso que lhes dá o tom, o charme. E eu vou só agregando, cada vez mais, coisas à minha bagagem cultural.

Ah, você quer saber se eu já peguei algum desses modos de falar?
Capaz!

Ovos de Páscoa do Grêmio e do Inter. Aqui tem pra todo mundo!