Uma breve e pequena revolta.

(nossa… que poeirada estava isso aqui… Tanto tempo longe…)

Nem sei se devia escrever isso, talvez fosse bom deixar guardado só pra mim, afinal de contas, ninguém tem nada a ver com o que eu vou dizer. Mas tô com um incômodo aqui dentro e ele precisa sair.

Um dos pilares de qualquer relação, seja ela de amizade, familiar, conjugal ou profissional, é a confiança. Eu acredito que sem confiança o convívio fica insustentável, em perigo iminente, sem entrega nem cumplicidade. Sem verdade.

Sabe, tenho muita propensão em acreditar nas pessoas. Às vezes, meu crédito é em doses generosíssimas. Mas a vida ensina e com as cabeçadas que dei ao longo dessas quase 4 décadas de aprendizado, aprendi a gerenciar melhor essa questão. Mas natureza é natureza, volta e meia lá venho eu, novamente, me apegando à tendência de achar que o que tenho da outra parte é a mesma consideração e confiança que deposito nela.

Daí que fica tão doído quando percebo que isso não existe… E quando vem de pessoas as quais eu nunca colocaria em dúvida a confiança delas em mim…. Quando a relação com essas pessoas é tão… visceral!

O que a gente faz numa hora dessas, hein? Chora? Lamenta? Briga? Escreve no blog? É, eu preferi escrever aqui. Porque não dá pra lamentar, brigar, chorar ou falar na frente de quem tem ouvido indisposto a ouvir. Daí escrevo palavras para mim mesma, nessa forma meio vaga, pra não comprometer e fazer eu me lembrar que preciso deixar de ser tola.

Amanhã é outro dia.

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O Acre. Minha Aldeia.

(Topa vir comigo para uma viagem comprida, lá para as bandas do Norte do nosso Brasil? Vem, acho que você vai gostar…Antes, clica aqui, e vai ouvindo a música que eu escolhi pra embalar essa nossa viagem…)

***

O post de hoje vai falar de um lugar lindo, de gente tão linda quanto o céu daquela terra… Esse lugar se chama Rio Branco e é a capital do estado do Acre.

Tive a felicidade de morar naquele pedaço mágico de terra por 3 anos: 2002, 2003 e 2004. Foram anos fundamentais no meu crescimento pessoal e profissional. Costumo dizer que minha vida tem um marco, como no cristianismo: A.A. (antes do Acre) e D.A. (depois do Acre), tamanho foi o aprendizado que tive vivendo naquele estado.

Para uma paulista interiorana como eu, arraigada à sua terra e grudada na família de ascendência italiana (onde um não faz nada se não comunica ao outro), sair de perto desse núcleo pode ser assustador e não estou exagerando. Antes de ir p/ o Acre eu já havia morado em Três Corações (sul de Minas) e no Rio. Cidades que ficam a uma distância razoável de Campinas – minha terra, mas não tão longe que não se possa fazer um ‘bate-volta’ de final de semana. Assim, mesmo estando longe da terrinha, conseguia manter contato físico frequente, onde podia matar a saudades do colo da família na hora que quisesse.

Além disso, eu era uma cria do sudeste. Acredito que consigam imaginar o que é para uma pessoa nascida e criada numa cidade rica e desenvolvida como Campinas, que ouvia desde criança o discurso orgulhoso de fazer parte da população do estado mais rico e desenvolvido do país, receber a notícia de que vai morar no Acre. Sim, foi como me tirar o chão. Sobretudo porque naquela época, os ecos desse discurso que eu citei acima me faziam manter a infantil empáfia bairrista que fazia pensar que só o que existia no eixo Rio-São Paulo prestava.

E foi assim, assustada, sem nenhuma expectativa, que eu desembarquei, depois de uma viagem de mais de 7 horas (São Paulo – conexão em Brasília – escala em Porto Velho), à 1h30 da madrugada, no 2º dia do ano de 2002, no aeroporto internacional de Rio Branco, pela primeira vez na vida. Ainda sou capaz de sentir o vento quente amazônico que veio me receber assim que saí da aeronave e que me fez pensar: “estou numa estufa! Vou voltar pro avião”.

A longa estrada para o aeroporto

Como podem ver acima, o aeroporto fica fora da cidade. Imaginem fazer este caminho de noite e não ver nada do lado de fora do carro (era só a mata!). Isso fez eu me arrepender ainda mais por não ter voltado p/ dentro do avião. Mas, devagar, a cidade foi surgindo com suas casinhas, umas de alvenaria e outras de madeira (uma novidade para mim), as ruas desertas (claro, já era madrugada) até chegarmos no hotel em que ficaria até ir p/ minha casa em definitivo. Os primeiros dias foram difíceis. Janeiro é um mês chuvoso, é o ápice do inverno amazônico (sim, vc leu certo. Na Amazônia o inverno vai de dezembro a fevereiro). Chove o dia todo e todo dia. Mas é quente, abafado. Estranhei demais.

Então comecei a pensar: “meu Deus, cheguei aqui, não conheço ninguém, marido já começou a trabalhar, estou há 4.000 km de distância de Campinas, eu preciso fazer alguma coisa, porque se ficar parada eu vou enlouqucer!”. Tudo bem que já estava transferida para a universidade federal de lá (UFAC) onde faria então boa parte do meu curso de Pedagogia, mas precisava trabalhar…. E assim, perguntando aqui e ali, fui procurar emprego.

E emprego foi o que não me faltou naquela terra. E graças às diversas atividades que exerci por lá acabei conhecendo muita gente. Olha, se não fiz de tudo, fiz quase. De professora de escola de capacitação profissional à repórter temporária da retransmissora da TV Record (que lá tem o nome de outra emissora de TV, a Gazeta (!)), nesse meio tempo conseguindo concretizar meu projeto de arte-educação com dança brasileira, trabalhando com publicidade e ainda fazendo merchandinsing e comercial pra TV (coisa que eu jamais imaginei fazer um dia). Tudo isso me foi oportunizado. E quanta coisa aprendi com eles e como tudo isso fez eu me conhecer cada vez mais, fazendo-me perceber que conseguia dar conta de mim mesma.

Mesmo fazendo tudo isso (e estudando Pedagogia), minha principal atividade, durante aqueles 3 anos, foi com a Dança do Ventre. Vocês já sabem que minha estrada na dança é longa. Nessa época eu estava em ponto de bala para começar a dar aulas: tinha um bom conhecimento de dança e de cultura árabe e acabara de tirar meu registro profissional na área (DRT). Até então, não havia no Acre nenhuma professora de danças árabes, e eu estava ali, chegando no auge da novela “O Clone”.

Aumentou a procura pela dança, mas também confundiu muito.

Bem, acho que até aqui já deu pra imaginar como foi a minha vida por lá… Pois é… Talvez o fato de chegar sem expectativas me fez começar a enxergá-las assim que comecei a perceber que as coisas estavam acontecendo para mim. Só sei que foi lá que aprendi muito do que sei hoje. Coisas que se vivesse apenas em Campinas eu jamais teria tido a chance de saber.

Rio Branco é uma cidade como qualquer outra que tenha uma população de aproximadamente 300 mil habitantes e conta com uma boa infra-estrutura: tem cinema, teatro, cafés, mercados, shopping (ainda que fraquinho, mas tem), comércio, universidades, bons restaurantes, lazer, hospitais… Infelizmente, o governo deste país ainda põe o foco no desenvolvimento no eixo centro-sul, e isso faz com que, dentre outras coisas, a gente não encontre artigos específicos de vestuário ou alimentares, na variedade e na quantidade as quais estamos acostumados no sul do país. Mas olha, vai de tudo um pouco pra lá e no final vc não sente falta de nada. Só que quando sai daquela terra, sente muita falta de gostosuras como o guaraná Tuchaua, o biscoitinho de castanha do Brasil ( não é mais do Pará, visse?), da farinha – absoluta e de-li-ci-o-sa – de macaxeira com côco, de comer filezinhos de peixe dos rios amazônicos (huum…), de encontrar filé mignon à 8 reais o quilo (e picanha também!). Só não vou falar do tacacá, pois foi a única coisa que eu não conseguir tomar, fui fraca, admito…

Lá é um dos poucos lugares onde se paga bem na área de educação e onde vi um governo investir no ensino público de verdade. O investimento na urbanização e revitalização da capital também está a todo vapor e tem transformado Rio Branco numa cidade linda.

O povo acreano é, sem sombra de dúvida, o mais receptivo que existe nesse país. Que me desculpem meus amigos de outros estados, vocês são uns amores, mas os acreanos nos recebem de uma forma muito especial, muito amorosa, que nunca vi em nenhum outro lugar (e olha que eu rodei, hein…). Sempre digo que não fui recebida de braços abertos por eles, mas que fui pega no colo! Conheci pessoas que fizeram toda diferença na minha vida: Sandra Buh, Angela, Noélia, Sara Mae, Sidney (meu cinegrafista-professor), Ocivaldo, as tantas alunas de dança que tive, as meninas que acreditaram em mim e juntas fizemos o 1º grupo de dança árabe do Acre, meus aluninhos das escolas, minhas alunonas da capacitação, Maju… Na verdade a lista é imensa, pois são todos muito especiais e tocaram de forma muito particular a minha vida.

(My god, que post imenso… Desculpem, não sei ser sucinta quando falo das coisas que amo…)

Nunca vi um céu tão estrelado como eu via lá… Nunca mais comi banana chips frita na hora… Lá eu ouvia a chuva vindo, lá de longe, da floresta e 5 minutos depois ela estava caindo sobre a minha casa… Até escutar Calypso lá era diferente, tinha graça!

Você pode me perguntar: Mas Vi, Rio Branco não tem problemas, como carência de mão de obra especializada? Sim, ainda tem. Mas tem igualmente um povo que agarra com unhas, dentes e determinação as oportunidades de crescimento profissional. São lutadores, empreendedores, muito trabalhadores. São pessoas que tem sede de crescimento e de vencer por isso procuram fazer daquela terra o melhor lugar para se viver e estão conseguindo.

Querem ver? Deem uma olhadinha (clicando sobre elas, vc as verá maior e com mais detalhes) :

Gameleira. Centro histórico de Rio Branco

Saí de lá sabendo que deixava uma parte do meu coração… O carro saía da cidade e eu, olhando para trás, via aos poucos as casinhas de alvenaria e de madeira sumindo, deixando a estrada margeada pela floresta ir ocupando seu espaço… Saí muito triste, sabendo que não sabia quando iria voltar. Na verdade, até hoje não sei. Mas espero que não demore… O Acre me ensinou que o melhor lugar pra se viver é a gente que faz.

A bandeira do Acre com sua estrela altaneira.

* A música que convidei vcs a ouvir é de um cantor/compositor acreano chamado Sérgio Souto e se chama Minha Aldeia. Puro espírito daquela terra.
* As fotos vieram daqui. Clica para você ver mais de Rio Branco.