O tempo sempre está ao nosso favor (ou sobre uma receita de pão de batata).

Com carinho, para Sayonara Linhares.

Fazer pão é coisa que gratifica a gente.  Se você  for adepto(a) dessas alquimiazinhas culinárias vai me entender. Me diz se não é mágico fazer um monte de farinha seca virar uma massa uniforme e pesada para, em seguida, virar algo fofo, cheiroso e acolhedor ? É quase como formar um outro ser, hehe.

Sendo neta de duas mulheres mestras na culinária,  sempre me fascinou vê-las manipulando farinha e transformando aquilo tudo em macarrão, bolo, pão….  Da admiração passei à prática, ainda bem novinha, porém… Como em qualquer arte, ter o domínio da técnica e conhecer os caprichos de cada elemento são dois aspectos que levam tempo.   Já queimei e solei muito bolo, embatumei generosamente alguns pães, até  que, com calma, foco e carinho fui compreendendo que manusear uma massa requer sensibilidade pra ouvi-la dizer: “mais água…”, “menos farinha…”. É sim. Massa fala. Pergunte a qualquer padeiro.

Mas vamos à receita.

Anos atrás tentei fazer pão de batata e me dei mal. Soquei farinha de trigo na batata e tudo ficou uma pedra (é, eu ainda não entendia bem a língua das massas 😉 ). Tempos depois, nova tentativa e outro fracasso. Daí, provisoriamente, desisti.

Nesta semana visitei uma amiga muito amada. Generosa como poucos, essa amiga preparou um pãozinho de batata para alimentar a nossa tarde e ele estava divinamente saboroso, de uma fofura celestial. Enquanto ela me falava a receita, eu ia concluindo o quanto ela era fácil e, ao mesmo tempo, questionava a minha suposta incapacidade em fazer uma iguaria daquela.

Então, no outro dia, decidi que ia tentar novamente. Quase desisto ao ver que não tinha – nem na despensa, nem na geladeira – a quantidade exata dos ingredientes que havia na receita dela. Mas aí, confiando do meu pretenso know-how  culinário, encarei. Botei na panela 3 batatas, 1 grande e duas médias  (não sei que tipo elas eram). Cozinhei com casca e tudo pra preservar o sabor. Já cozidas, tirei a casca e espremi, no garfo mesmo.  Deixei amornar e, com esse purê quase frio, agreguei 2 ovos*, meio tablete da boa manteiga Aviação (era a que tinha em casa) e uma pitadinha sem-vergonha de sal.

Numa outra vasilha misturei 1 envelope de fermento biológico em pó com 5 colheres de açúcar demerara*. Só misturei, ele não dissolveu (se vc usar o refinado ele dissolve, mas açúcar refinado não entra mais na minha casa há algum tempo). Joguei na mistura de batatas e mexi com fé.

Eu trabalho a massa dos pães que faço na mesa da cozinha, e foi lá que fiz um montinho com farinha de trigo com aproximadamente 2 xícaras. Queria fazer com farinha integral, mas preferi não arriscar dessa vez. Deitei o purezão sobre a farinha e, com a ajuda de uma espátula e da outra mão, fui revolvendo a massa de baixo para cima, que é pra ela pegar a farinha direitinho, sem ficar assim… muito seca.  Não precisa sovar. Só ‘secar’ a massa, como eu digo. E ela ‘seca’ rápido, não gruda na mesa. Usei, ao todo, umas 4 xícaras de farinha de trigo, agregadas aos poucos… (lembra do que eu disse lá em cima, né? Tem que saber ‘ouvir’ quando a massa pede farinha, quando não pede…).

Modelei umas 3 vezes de formas diferentes até ficar do jeito que considerei bom.  Coloquei numa forma média, retangular, dessas de bolo. Salpiquei gergelim por cima (invenção minha) e guardei no forno  desligado para crescer. Ah, dica:  gosto de fazer meus pães crescerem ao sol, cobertos por um pano. Mas nem sempre tenho sol ou calor. Então pré-aqueço o forno e, enquanto misturo a massa, deixo ele esquentar. Desligo 1 ou 2 minutinhos antes de levar o pão para crescer. Com aquele calorzinho ele cresce que é uma beleza e não leva nem 1 hora pra ficar todo inchadão.

Bom, aí vocês já sabem, né? Cresceu, pré-aqueci o forno (de novo, mas agora é pra assar) esperei ficar quentinho e coloquei o bonitinho lá dentro. Assou por uns 20 minutos e ficou douradinho, sem precisar pincelar gema batida por cima.

Marido passou um café, cortamos aquela pecaminosidade fofa, dourada, quente e fomos ser felizes. Eu mais ainda, pelo pão ter dado certo depois das tristes experiências anteriores. Então eu penso que certas coisas na vida da gente fluem da mesma forma como foi fazer este pão:  dar tempo ao tempo e enquanto isso, experimentar as coisas que o mundo oferece, observando e aprendendo algo com elas. Quando aprendi a fazer pão, conseguia manusear bem a farinha de trigo, mas não o suficiente para misturá-la a um elemento como a batata. Inexperiente, colocava farinha de mais ou de menos e estragava a receita. Foi ao passar por outras vivências culinárias que apurei meu entendimento sobre a química que existe entre os alimentos e assim dessa vez, mesmo sem seguir a receita à risca, consegui fazer um belo pão.

Ou seja…. Tudo é questão de tempo e conhecimento.

Um pedacinho dele, ainda quentinho.(Desculpem o amadorismo da fotógrafa aqui, mas juro que vou aprender a tirar foto de comida.)

* Ambos orgânicos.

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Os tempos que habitam o Tempo de nossas vidas.

Eu sei que quando a gente faz um blog, deve se dedicar a ele. Essa dedicação se reflete em postagens diárias (de preferência), às vezes até mais de uma vez ao dia, empenho em melhorá-lo visualmente, responder aos comentários. Sei, sei de tudo isso.

Mas antes dessa lista de ações existe um requisito que deve abraçar os demais: a vontade de escrever. Escrever sem vontade, apenas pra encher as páginas daqui não, não serve. Nem eu, nem você meu leitor, merecemos isso. Texto escrito sem vontade é como parto de fórceps e fica chato de ler. “Sopa de jiló”, como diria Rubem Alves.

Poderia vir aqui e derramar as coisas que me aborrecem, me deixam p. da vida, as sacanagens que me fazem… Aliás, eu já fiz isso algumas vezes neste espaço. É porque existem dias em que preciso falar, nem que seja só pra mim. Mas percebi que depois que tudo isso passa, fica bobo, superado e a coisa ainda fica lá, escrita, vibrando de um jeito pesado.  E problemas, bem… Quem não os tem? Os meus estão aqui, dentro de mim, e acho que verbaliza-los aqui no blog, preocupando ou até talvez aborrecendo quem não tem nada a ver com isso é reforçá-los.  Não, não faz meu estilo e a última coisa que quero com este espaço é transforma-lo num muro de lamentações.

Mas então… Falava sobre vontade  de escrever. Ultimamente ela anda bem escassa. Mas também não tem me feito falta. Talvez seja minha rotina que ficou mais atribulada e tem me deixado afastada do mundo www… Também pode ser só uma fase mais quieta que atravesso, já que falei tanto de mim nesses dois últimos anos… Ou pode ser os dois. Hum.. Acho que é isso.

Mas não vou fechar o Balaio não… Até porque se for fase, uma hora vai passar e aí, montar um novo blog, tudo de novo, vai dar muito trabalho. Deixa ele aqui. Pode ser que aqueles textos longos e reflexivos que faço não venham por hora, e no lugar eu traga um video legal ou um texto bem escrito que encontre por aí. Sabe, né? Um apanhado de coisas que quero guardar para rever depois ou que merecem ser compartilhadas com você.

Aliás… Muitas delas falarão por mim.

Beijinhos de flor-do-campo.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fui ver Tropa de Elite 2.

Aliás, acabei de voltar do cinema.

Rapaz… Nunca boto muita fé em continuações de filmes, mas TE 2 é melhor que o 1.

O que vou dizer aqui é a pura expressão do que achei de tudo o que vi. Um punhado de pensamentos que passam agora pela minha cabeça. Vamolá.

– É desanimador pensar que vivemos numa sociedade onde o senso de coletividade é escasso e o sentimento de fraternidade, no seu conceito real e sem pieguice, é praticamente inexistente.

– Não aceito, sob nenhuma circunstância,  que uma pessoa tenha poder de decisão sobre a vida ou a morte de outra.

– Tristíssimo é pensar que nossa sociedade ainda se encontra num grau de evolução tão rudimentar que precisa de grupos como o BOPE para que se consiga alguma ‘ordem’ (mal necessário?).

– No Brasil não se faz política. Se faz politicagem. No sentido mais podre que essa palavra tem.

– Por isso, questione. Questionar é a palavra-chave.

– Que o filme mostra uma realidade cruel e verdadeira, mostra. Particularmente, não gosto de ver filmes desse gênero, de violência e corrupção já me basta o que o noticiário traz. Mas apesar de tudo, acho que ele desperta a criticidade das pessoas ao cutucar o entendimento delas acerca de justiça e direitos humanos.

– Sobre a produção do filme: realismo fantástico. Direção primorosa, soube tirar o melhor de cada um do elenco. E Wagner Moura é o melhor ator de sua geração, sem sombra de dúvida. E ainda arranca suspiros da mulherada na pele do revoltado Coronel Nascimento.

– Finalizando, concordo com a frase principal do filme “O sistema é foda“. Por isso, na próxima encarnação vou reencarnar em outro planeta. Esse aqui é muito complicado.

De filho para pai: "Por que no seu trabalho tem que matar?"

 

Paulistês.

Houve um tempo na minha vida (tempo distante, aliás) no qual eu acreditava piamente que não falava com sotaque. Imagine… Uma paulista, do interior, que na hora de falar varia entre os “erres” retroflexos (nome chique para designar o “r” pronunciado com a língua dobrada para trás, comumente chamado de “r” caipira), de vez em quando se mesclando a um ‘cantado’ italianado, mas sempre  alongando as sílabas nas palavras ( andããããndo, comêêêêndo…). Fora as gírias. Mas também, nesse tempo, minhas andanças pelo Brasil ainda não haviam começado e as viagens mais longas se resumiam às idas ao litoral, às cidades do interior paulista e à mega capital. Ou seja, locais onde ouvia, com uma ou outra variação de termo/expressão, a mesma sonoridade, o mesmo cantado ao falar.

É claro que para mim, naquela época, isso passava batido.  Quem tinha sotaque eram os outros, os meus amigos que vinham do sul, do nordeste, do Rio… Eles é que falavam “esquisito” e eu falava do jeito “correto”.  E ainda era petulante a ponto de querer corrigi-los! Obviamente (e para o bem deles), não tive nenhum ‘sucesso’ nessa tarefa.

Foi vivendo em outros estados que a ficha caiu, junto com o meu bairrismo. O convívio com a pronúncia e a melodia contidas  nos dizeres do sulista, do carioca, do nordestino e do nortista, além de fazer com que eu internalize novas formas de me comunicar, faz com que cada retorno à Campinas seja uma redescoberta da minha forma original de falar. É quando eu percebo o peso do meu sotaque paulista, que a essa altura da vida já está misturado aos regionalismos dos lugares que passei.

Essa redescoberta é, sem dúvida, muito divertida. Numa viagem dessas prestei atenção numa expressão que usamos demais: o “tó”.

Na fala informal, os paulistas optam pelo “tó” ao “tome”. Explico. Você chega e me pede um copo d’água. Eu vou até a cozinha, pego o copo, encho de água e trago para você, colocando o copo na sua frente e dizendo “tó!”. Ou é seu aniversário e eu, ao lhe dar o presente, digo, sorridente: “tó p’cê!É só uma lembrancinha, não repara!” O “tó p’cê” é a versão completa do “tó”. Destrinchando a expressão, seria: “Tome! Para você!”.

Outra constatação. Paulista não conjuga o tempo subjuntivo dos verbos na forma tradicional (lembra? O tempo subjuntivo é aquele que indica uma incerteza, uma probabilidade).  Então, expressões como “que eu venha”, “que eu estude”, “que eu jogue” são praticamentes negligenciadas, seja pelo povo do interior ou pelo da capital. Assim, é super comum você ouvir, do porteiro ao médico-cirurgião:

“Quer que joga fora?”, “quer que eu telefono?”, “quer que eu trago?”, “quer que eu peço?”, “quer que limpa?”.

Eu mesma não me livro disso. E falo assim, direto e reto. Só me policio em situações mais formais ou dando aula. Mas no resto…

Outra expressão que pode constranger os não familiarizados ao paulistês: o “ergue aí”.

Exemplo: na casa dos meus avós, na hora da novela, é muito comum ouvir minha santa avó dizer: “- Arre, ergue aí essa TV que hoje é o úrrrrtimo capítulo!” .  Ou, se o telefone toca e o rádio está ligado, a todo vapor, no programa do Eli Corrêa, alguém diz: “- Mah quem foi o maledeto que ergueu esse rádio? Abaixa isso, desse jeito não se escuta nada no telefone!”. Ao contrário do que se pode pensar, ninguém precisou carregar a TV nos braços, fazendo força para colocá-la num lugar mais alto, nem o mesmo o radinho. O “ergue aí”, nesse caso, é aumentar o volume dos mesmos. Nada de exercício de musculação.

Tem também o “alá!”. Não, nada a ver com o islamismo. “Alá” é uma expressão indicativa, a mesma coisa que “olha lá!”. Exemplo: família paulista vendo o Fantástico no domingo à noite. De repente, a mãe fala: “Alá o fio (filho) do Fábio Júnior. Também tá participando do Fantástico“. Ou, quando passa a Esquadrilha da Fumaça pelos céus do interior paulista, o pai fala para o filho: “-Alá os avião que faz acrobacia!“. Assim mesmo, “os avião que faz”. E não pense que isso é coisa só daquele que mora na roça, ou que estudou menos. Pode parar com isso. Todo paulista uma hora vai falar assim, mesmo que não perceba. A gente escorrega, ué. Ou vai ver, foi excesso de pamonha de Piracicaba na infância, rs.

Aliás, plural e singular em São Paulo são temas que mereceriam um post exclusivo. Quem sabe um dia, quando eu souber o porque de falarmos “cabô as ficha”, “dois pastel”, ” as loja do shopping”… Até lá vou fazendo conjecturas.

Bem, encerro este post em clima de saudosismo total da minha terrinha. Deixo p’cêis um cadim da nossa música, representada no gostoso samba paulista de Adoniran Barbosa, interpretado por um de seus maiores expoentes: Demônios da Garoa!

PS:  Eu sei que você não tem essa bobagem inventada de sotaque melhor-sotaque pior, mas como você também gosta de saber das coisas e quer saber porque tem tanta gente que ainda pensa assim, faz o seguinte: da próxima vez que for à livraria Saraiva (eu prefiro a Cultura), procura pelo livro “Preconceito linguístico“, de Marcos Bagno. Enquanto vc toma o café por lá, dá uma folheada no livro, tenho certeza de que vai achar no mínimo polêmico o que ele tem a dizer e acabar levando pra casa, mostrando pra todo mundo.

Virando a folhinha…

E assim, chega setembro…

O mês que inicia a primavera…

Os dias já não são tão frios e quando faz calor é tão agradável…

Dentro de mim também há um prenúncio de primavera, ainda que o inverno tente abafa-la. Mas ela vem… A seu tempo, mas vem.

E o exagero nas reticências desse breve texto é a confirmação dessa expectativa.